SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

Poças Esteves: "Por mais liberal que seja, Governo não poderia ignorar" caso BES

Autor do livro "O Caso BES, a realidade dos números", afirmou ao Económico TV que havia solução para o Grupo Espírito Santo. Uma semana antes da queda do grupo, recapitula o co-autor do estudo encomendado por Ricardo Salgado sobre o caso BES, houve declarações do governador do Banco de Portugal, de que "o banco era sólido" e que "se houvesse problemas, recorria-se ao dinheiro da ‘troika'.

Acerca da solução encontrada em Agosto do ano passado, diz: "O que me leva a pensar? Que a resolução foi a única solução. A porta foi fechada, só pode ter sido pelo Governo. Não acredito que fosse um problema interno do Banco de Portugal".

Nas críticas ao Executivo de Passos Coelho, o economista refere que "por mais liberal que seja, o Governo não poderia ignorar este tipo de situações reais da economia real".
"O Governo deveria ter considerado a economia como um todo. Não era só um banco, era um grupo económico de toda a economia portuguesa", afirmou o economista Poças Esteves no jornal das 19 horas do Económico TV.

Em entrevista ao canal televisivo do Económico, Poças Esteves, que com o economista Avelino de Jesus fez um estudo, encomendado por Ricardo Salgado, sobre a situação do Grupo Espírito Santo, - estudo que resultou no livro "O Caso BES, a realidade dos números", lançado nesta segunda-feira -, explicou que o grupo continha 400 empresas, 40 mil funcionários e geria mais de 90 mil milhões de euros. Quanto à dívida, o problema não estava no montante, mas no facto de 80% ter de ser paga no prazo de um ano, garante.

Pela urgência em resolver este passivo, exigia-se uma renegociação da dívida, afirma, mas "não com credores, que são milhares. Era preciso recapitalização que permitisse que os activos fossem vendidos". Mas "não em fire-sale". Deveria sim ser uma transacção "que permitisse evitar a queda de confiança".

Entre os exemplos do que significou a perda de confiança entre os investidores e as pessoas em geral, Poças Esteves realça o caso da PT, cujo projecto de fusão com a Oi foi comprometido pelo investimento de quase 900 milhões de euros em papel comercial da Rioforte. "Havia activo, mas não havia dinheiro para pagar", diz, e "isso só se resolveria com continuidade das operações e confiança no processo".

Sobre a responsabilidade da família Espírito Santo, assume que "é culpada" em parte: "Geriam bem o banco, geriam mal o grupo não financeiro. Quando tentaram recuperar situação, não foram a tempo e não foram ajudados. E foi o colapso", explicou.

Nas críticas que lançou, nesta entrevista ao ETV, ao papel do Banco de Portugal e do Governo - na linha do que está publicado no livro -, Poças Esteves destaca o ‘ring-fencing', que "em vez de ajudar, acelerou todo o processo de desconfiança e uma bola de neve que provocou diminuição brusca do valor dos activos, fugas de depósitos do banco" "o ‘default' da PT". Tudo, diz, por falta de confiança no grupo.
Para evitar o colapso do BES, as autoridades poderiam ter aproveitado os financiadores privados disponíveis, que, assume o economista, ao entrarem no banco fariam a família Espírito Santo perder posição. Outra solução seria o uso de dinheiro público, ou o montante disponibilizado pela ‘troika' para o sector bancário.

Para exemplificar o que já foi feito nesse sentido, o presidente da Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco (SaeR) indicou casos em diversos países. Aquando da crise financeira de 2008, "os EUA analisaram caso-a-caso, puseram dinheiro público e hoje já receberam, com lucros". Em Inglaterra, "no Lloyds foram colocados mais de 30 mil milhões do erário público, e mais de metade desse dinheiro voltou aos cofres do estado". Em França, "na Peugeot, o estado colocou dinheiro, salvou a empresa e está a ter retorno". E em Portugal, "o Banif era um banco sem risco sistémico e foi salvo dessa forma".

Em Abril, em declarações ao Económico, José Poças Esteves e Avelino de Jesus admitiram que o estudo foi "encomendado" à SAER por Ricardo Salgado, mas garantiram que estava a ser feito de forma "independente" e assente em "metodologias rigorosas". "Não sabemos se o Dr. Ricardo Salgado pretende usar o estudo em sua defesa. Provavelmente só o fará se as conclusões forem positivas para ele", disse Poças Esteves em Abril, lembrando que o banqueiro prometeu enviar o estudo à Comissão Parlamentar de Inquérito.

Alexandre Frade Baptista e Alexandra de Almeida Ferreira
Diário Económico
23.Junho.2015