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"Portugal deve apostar em eventos que o lancem internacionalmente"

Bernardo Trindade, secretário de Estado do Turismo, falou ao DN no 1º dia do Congresso da Associação Portuguesa das Agências de Viagens que se realiza no Funchal.
 
Quais as perspectivas para o turismo na Europa em 2011?
A Europa está a atravessar uma fase muito desafiante. Apesar constituir o maior destino turístico mundial e de conter em si mesma os 5 destinos com maior fluxo (França, Espanha, Alemanha, Reino Unido e Itália) é, em termos globais, um destino maduro.
O velho continente tem, assim, de encontrar, no âmago da crise que atravessa, formas de reinventar-se, mantendo simultaneamente a essência do que a define, de forma a cativar turistas cada vez mais exigentes, atentos e sedentos de novidade.
O ano de 2009 foi um período de quebra em todos os mercados, estimando-se que a recuperação em 2010 seja, no mercado internacional, entre 5% a 6% e na Europa entre 1% a 3%.
A OMT prevê que o crescimento desta actividade na Europa seja em 2011 abaixo da média mundial, que se estima um pouco acima de 4%.
E Portugal?
Portugal tem tido este ano resultados que superam a média europeia.
Os resultados acumulados de 2010 ultrapassam já em 44 milhões de euros os obtidos em 2008 que tinha sido para nós, e até agora, o melhor ano turístico de sempre.
As receitas geradas pelo Turismo este ano em Portugal atingiram, só no mês de Setembro, 811,6 milhões de euros, com um incremento de 12,1% relativamente ao mesmo mês do ano anterior. As receitas desta actividade entre Janeiro e Setembro foram de 5,87 mil milhões de euros o que, também comparativamente com o mesmo período do ano passado, significou um aumento de 9,9%.

Esta performance demonstra o quê?
Que vale a pena o investimento estratégico na qualidade porque nos diferencia no mercado. Mas este é um trabalho que não termina, porque o Turismo tem hoje uma necessidade de dinamismo e inovação constantes, o que não acontecia há uns anos atrás.
Acredito que estamos no caminho certo, que estamos a consolidar as bases estruturais que construímos, que temos empresários dinâmicos e bem preparados e que o Turismo no próximo ano continuará a ter uma contribuição muito positiva para o nosso país. Por factos que todos conhecemos, a Madeira não conseguiu acompanhar os resultados do resto do país. Estou certo que o novo ano trará um novo fôlego e muitos turistas à Madeira.

O turismo é um aglomerado de actividades com importância estratégica na economia portuguesa. Está o turismo em Portugal a evoluir segundo as tendências da procura mundial do turismo em que a qualidade dos serviços é cada vez mais uma exigência do turista?
O perfil do turista actual é interessante e muito complexo. Podemos, aliás, falar em múltiplos perfis, embora a tendência geral seja a da procura da qualidade.
Viaja-se hoje mais e, por isso, a expectativa é maior. Procura-se experiências autênticas, diferentes, com uma boa relação preço/qualidade.
Acredito que o nosso país está apto a responder a este desafio.
A qualidade da nossa oferta é reconhecida, não apenas ao nível das infra-estruturas e dos empreendimentos turísticos, mas também da nossa gastronomia e vinhos e do nosso património histórico e natural em geral.
Este reconhecimento tem estado bem patente no resultado de inquéritos de satisfação que têm sido efectuados aos turistas, que demonstram que grande parte dos turistas estrangeiros que nos visitam vêm por recomendação de familiares ou amigos e que pretendem regressar em novas viagens.
Esta monitorização da satisfação do cliente, com consequente implementação de melhorias na oferta, é uma medida absolutamente crucial, quer para a Administração, quer para os privados, se quisermos manter esta trajectória de sucesso que temos traçada.

O turismo português está a apostar de forma consequente nas novas tecnologias ou esta é ainda uma área problemática do nosso turismo?
A evolução recente das tendências de procura, aliada às novas tecnologias, tem sido uma constante nesta actividade e penso que este fenómeno está a ser acompanhado de perto por todos os players do sector, tanto públicos, como privados. Actualmente, todo o investimento promocional público tem sempre uma forte componente de aposta na internet, e nas redes sociais em particular. É inegável a enorme influência destas realidades na escolha dos destinos de férias, por isso o "online" está perfeitamente interiorizado nos mecanismos de actuação promocionais, quer do Turismo de Portugal, quer dos organismos regionais.

As empresas adaptaram-se, nomeadamente na utilização da web?
Também me parece que o comportamento das empresas têm sido muito activo neste domínio, quer em termos de promoção e de venda, muitas vezes aproveitando canais já existentes, quer nos serviços que oferecem aos clientes nos seus empreendimentos. A este propósito, refira-se que a Portaria que define os requisitos de classificação dos estabelecimentos hoteleiros exige, como requisito obrigatório, para os hotéis de 4 e 5 estrelas que os mesmos disponibilizem o acesso à internet nas unidades de alojamento e para os hotéis de 3 estrelas, que a disponibilizem na zona comum. Apesar de a gratuitidade do serviço não ser imposta, ela constitui, como é evidente, um factor de diferenciação positiva. Esta nova realidade Web veio desafiar as formas de venda tradicionais, estando neste momento a revolucionar a organização de muitas empresas que, para se manterem, precisam de se adaptar rapidamente à nova realidade, o que pressupõe, entre outras coisas, um sério investimento nos seus recursos humanos.

O PENT (Plano Estratégico Nacional de Turismo) trouxe uma certa "regionalização do turismo" através da criação dos pólos e das regiões. Que pontos fracos e fortes aponta ao PENT. Não houve por vezes uma sobreposição ou falta de clareza entre estas duas entidades?
Permita-me discordar, mas o PENT não trouxe uma "regionalização do turismo". O PENT identificou apenas um conjunto de regiões com enorme potencial de desenvolvimento, onde se considerou essencial apostar turisticamente, no sentido de diversificar a oferta nacional (que se encontrava muito centrada nas duas principais regiões turísticas: Algarve e Madeira).
A criação de Entidades Regionais do Turismo com capacidade para a gestão destes destinos acompanhou essa orientação. Regionalização do Turismo existia com a anterior legislação. Não esqueçamos que de 30 regiões de turismo, passámos para 11 Entidades Regionais de Turismo, hoje reais gestoras de destinos turísticos, dotadas de autonomia e bem conhecedoras e próximas das realidades locais. Entidades que estão aptas a responder de forma eficaz a uma procura mutante e fragmentada e a implementar estratégias de desenvolvimento integrado dos destinos. Penso que a estratégia que foi traçada continua a fazer todo o sentido.

O PENT foi essencial para o sector. É isso?
O Plano Estratégico Nacional do Turismo (PENT) foi, de facto, essencial na definição de directrizes que têm, ao longo destes últimos anos, orientado a actuação no sector. E não falo só de actuação por parte de entidades públicas. É interessante perceber como as orientações do PENT servem de referencial também na estratégia e na organização do negócio de muitas empresas.
Considerado o tempo decorrido desde a sua aprovação, as alterações conjunturais a que todos assistimos, e o facto do próprio Plano prever a possibilidade da sua revisão ao fim de 3 anos, julgámos que seria importante proceder à avaliação da execução do PENT, estando a ser efectuado um trabalho de reorientação de alguns objectivos e linhas de acção.

Há países como a Tunísia, Índia, Singapura, Roménia, etc, a apostar com sucesso neste segmento de turismo com clientes dos EUA e da Europa principalmente da Alemanha. Este segmento do Turismo terá alguma viabilidade em algumas regiões de Portugal, como a Madeira ou o Litoral Alentejano, onde as condições climáticas ou o ambiente poderiam funcionar de vector positivo? Há alguma perspectiva ou grupos interessados? Ou em Portugal torna-se difícil "casar" turismo e saúde para além de SPA"s e pouco mais?
A Saúde e Bem-Estar é um dos dez produtos estratégicos identificados no PENT, em função da respectiva quota de mercado e potencial de crescimento, bem como da aptidão e potencial competitivo de Portugal. Em Portugal, a existência de uma grande diversidade de águas termais com fins terapêuticos e a revitalização de algumas dessas estâncias, a extensa costa litoral que permite perspectivar o incremento dos centros de talassoterapia, a crescente qualidade da oferta hoteleira de 4 estrelas e 5 estrelas e a instalação de marcas de Spas mundialmente reconhecidas, são factores que têm potenciado o desenvolvimento deste produto estratégico. Portugal tem já muito a oferecer a este tipo de mercado onde, aliás, o nosso país tem uma longa tradição. É, porém, necessário aumentar o leque de serviços e actividades ao dispor do turista nas unidades termais existentes, revitalizar algumas estruturas e recuperar internacionalmente um lugar de destaque neste mercado.
Considera que a oferta nacional turística está ciente de que os próximos anos serão de mudança exactamente porque, como antes se referiu, a procura turística encontra-se em situação de ruptura com a tradição (férias cada vez mais curtas, férias individuais ou então em família com várias gerações, exigência de qualidade mas não aumento de custos etc). Os novos investimentos irão passar a incorporar estes elementos?
Acho verdadeiramente que sim. A informação não está apenas disponível para os turistas, mas para toda a sociedade. Os nossos empresários estão hoje plenamente conscientes da necessidade de oferecerem um produto competitivo a nível de preço e de tipo de oferta, assim como sabem que o mercado está muito fragmentado e que, caso não se especializem num determinado nicho, terão de oferecer produtos que não sejam uniformizados.
A inovação e a qualidade terão de integrar a estratégia das empresas como elementos essenciais e, para isso, o investimento nos recursos humanos é primordial.

Começou-se a falar muito do Hipercluster do Mar integrar o Turismo, com base num estudo SAER. O próprio Considera que esta ideia acrescenta algo de novo a um sector que, de facto, tem muitas afinidades com o mar, nas actividades náuticas, no sol e praia etc? Ou não será antes um hipercluster de momento um pouco vazio a procurar lançar-se "à custa" do turismo (não há indústria naval, não há industria das pescas) para dar alguma consistência a uma ideia? Ou seja, que sinergias traz para o turismo a sua inclusão do hipercluster do mar?
O hypercluster da economia do mar é um estudo que conclui existir potencial para permitir que o valor directo das actividades económicas ligadas ao mar aumente o seu peso directo na economia portuguesa de 2% para 4% a 5% do PIB no final de 2025. Este estudo projecta um desenvolvimento integrado de diversas actividades ligadas ao mar, tal como os portos, os transportes náuticos, a marinha de guerra, os estaleiros de construção e reparação naval, a aquacultura, as pescas e também o turismo.
É uma ideia interessante e parece-me que as sinergias que podem ser criadas entre as diversas actividades podem ser muito positivas.
Este olhar interessado para o mar é uma realidade que os nossos antepassados souberam aproveitar melhor do que nós. No turismo, em particular, e independentemente da prossecução deste projecto, o nosso mar é uma mais-valia inestimável e é um produto turístico em si mesmo. A nossa portuguesa proporciona enormes oportunidades para o Turismo, muitas ainda por explorar. Quer no âmbito dos desportos náuticos, da náutica de recreio ou do emergente mercado de cruzeiros que, segundo números divulgados pelo Conselho Europeu de Cruzeiros, cresceu na Europa 12%, ainda há muito a fazer. É um mercado com muito potencial.

Estarão as regiões/pólos a apostar na animação correcta? A singularidade, a especificidade, o que é genuíno são vectores muito apreciados pelos turistas, como se está a explorar estas componentes e qual o papel dos serviços e institutos da Secretaria de Estado do Turismo no aconselhamento e apoio a estas iniciativas?
As entidades regionais de turismo e os pólos de desenvolvimento turístico são interlocutores das respectivas zonas geográficas junto do órgão central de Turismo. O modelo de gestão inovador criado atribuiu-lhes capacidade para uma realização eficaz dos seus projectos de valorização turística e de aproveitamento sustentado dos respectivos recursos turísticos. Esta acção regional é realizada no quadro das orientações e directrizes da política definida pelo Governo e nos planos plurianuais das administrações central e local, assegurando-se uma homogeneidade dos princípios orientadores. As entidades regionais, próximas que estão dos players locais, têm efectivamente assumido um papel muito dinamizador. Assistimos em todas as regiões ao surgimento de inúmeros eventos culturais, artísticos e desportivos que se realizam de forma regular e estruturada, atraindo a atenção das populações locais e enriquecendo o rol de experiências distintivas oferecidas aos turistas.
Ainda há espaço para inovar?
Penso que neste domínio existe ainda uma margem enorme para inovar e valorizar a nossa oferta. A procura da essência dos povos e da sua singularidade é uma tendência global no Turismo, pelo que devemos fazer um esforço de revitalizar tradições significativas da nossa entidade enquanto povo, que deverão ser um marco diferenciador e enriquecedor da nossa oferta.
Penso mesmo que deveremos no futuro apostar fortemente em algum ou alguns poucos eventos que nos projectem mundialmente. Se pensarmos, por exemplo, na Oktoberfest, o festival da cerveja de Munique, em que os mais de 6 milhões de visitantes gastam anualmente cerca de 830 milhões de euros, nas festas de São Firmino em Pamplona ou no Carnaval do Rio de Janeiro, todos entenderão o que estou a dizer.
Como se distribui o turismo em Portugal? Por segmentos como a cultura, o desporto, o sol e mar, o religioso... Não haverá novos segmentos a desenvolver? A visita às empresas, a instituições?
No PENT foram definidos, com base nas vantagens identificadas no país e no potencial da procura internacional, um conjunto de 10 produtos considerados estratégicos - Sol e Mar, Turismo de Negócios, Touring Cultural e Paisagístico, Golfe, City Breaks, Saúde e Bem-Estar, Turismo Náutico, Gastronomia e Vinhos, Turismo Residencial e Turismo da Natureza.
Entre estes produtos, encontram-se alguns numa fase de vida mais madura, como o Sol e Mar, em que a tónica deve estar na requalificação de algumas zonas, e em associar actividades que enriqueçam a estadia do turista que nos visite com esse fim, potenciando a internacionalização de alguns destinos.
Há, por outro lado, produtos em fases mais iniciais de desenvolvimento e cuja potenciação irá alavancar os produtos mais maduros. Falamos, por exemplo da Gastronomia e Vinhos, que faz parte do nosso património cultural e que é muito apreciado por quem nos visita. A promoção da gastronomia portuguesa enquanto produto turístico de excelência, envolvendo as escolas de hotelaria e turismo portuguesas, os industriais do sector e as Entidades Regionais de Turismo é hoje uma realidade corporizada no programa Prove Portugal.

Quais são as grandes linhas previstas para a promoção?
O novo acordo de promoção externa regional, sem abandonar os princípios de parceria, alinhamento e concertação estratégica entre entidades públicas e privadas, é substancialmente inovador porque fundamentalmente virado para as empresas e para a sua capacidade de comunicar no mercado. Parte do orçamento será por isso destinado a apoiar acções de parceria entre grupos de empresas. Com este novo modelo pretendemos a participação de mais associados em cada uma das Agências Regionais de Promoção Turística e, fundamentalmente, que as empresas e os empresários confiem e se revejam cada vez mais neste modelo.

Que importância atribui a este Congresso da APATV, que hoje se inicia no Funchal, no actual contexto politico e económico internacional?
A APAVT foi fundada em 1950 e, desde essa data, tem sido um interveniente fulcral no mundo turístico português, pela sua dimensão e pelo trabalho que tem desempenhado.
As conferências da APAVT constituem, tradicionalmente, fóruns de reflexão e de debate entre os associados, sobre temas da actualidade.
A conferência deste ano realiza-se na Madeira, sob o tema "Liderança na recuperação".
O programa conta com intervenções de reconhecidos profissionais do sector em temas chave para as empresas, e para as agências de viagem em particular, como as novas exigências dos destinos, novas formas de distribuição ou como encarar a crise como uma oportunidade.
Num contexto internacional e nacional como o que enfrentamos, não pode ser mais pertinente o programa escolhido.
Entrevista: Lília Bernardes
Diário de Notícias
27.Nov.2010

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