SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

A necessidade de uma grande reflexão nacional

Passou um ano sobre a medida de resolução ao BES. Passou um ano sobre o colapso do grupo económico BES/GES, o último conglomerado misto estruturante da economia portuguesa e de base nacional. A economia portuguesa mudou e está a mudar e a data de 3 de Agosto de 2014 constitui um marco histórico desse processo de mudança. Um ano depois, é importante uma reflexão nacional sobre onde estamos, para onde vamos e que modelo de desenvolvimento queremos para a economia portuguesa.

Após a última grande crise de 1983/85, em que Portugal também teve de solicitar apoio ao FMI, as lideranças políticas e económicas da altura optaram por uma estratégia e um modelo de desenvolvimento que, entre outros componentes, passava por uma maior integração na Europa, mas também pela constituição de grupos económicos, preferencialmente de base nacional, que fossem os centros de racionalidade e estruturantes da economia no futuro. Foi nesses princípios que foram criadas as bases da economia portuguesa nos últimos trinta anos e que duraram até agora.

Numa economia com as características da economia portuguesa, a organização em conglomerado misto é um dos modelos que melhor permite a sustentação do desenvolvimento dos grupos económicos. De todos os grupos nacionais que, com todas as dificuldades em termos de capitalização, se (re)constituíram após as reprivatizações (incluindo grupos como Champalimaud e Mellos, por exemplo), o Grupo Espírito Santo foi o que levou mais longe este processo.

O colapso do conglomerado misto BES/GES é um facto. É um facto que derivou de razões que se prendem com a gestão do grupo, mas também de opções e decisões tomadas pelos decisores políticos e institucionais, na altura. Mas é importante agora, passado este ano, reflectir. Reflectir sobre as consequências e o futuro, o que queremos, afinal, para o sistema financeiro e para a economia portuguesa como um todo. É uma reflexão para as lideranças políticas e económicas, mas também para todos nós, Portugueses.

À altura do colapso, o Grupo BES/GES era constituído por cerca de 400 empresas, localizadas em vários continentes, empregavam cerca de 40.000 colaboradores (o maior empregador nacional) e geria um total de cerca de 90 mil milhões de activos. O BES era, claramente, um banco de referência no sistema financeiro nacional, ocupando o terceiro lugar, a seguir à CGD e ao Millennium BCP, era o banco com maior capitalização bolsista, com uma intervenção determinante na economia portuguesa e uma forte orientação para as empresas, com cerca de 75% do seu crédito, e uma quota de cerca de 25% do total do financiamento às empresas nacionais, com grande relevo para as empresas exportadoras.

Por isso, o colapso do conglomerado BES/GES foi e vai ser importante para a economia portuguesa e a data do acontecimento constitui um marco histórico que deve usado para reflexão.


Artigo de opinião do Dr. José Poças Esteves no Diário Económico de 3 de Agosto de 2015