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As causas das guerras

Este processo de globalização produziu dois ícones que são a sua “verdade absoluta”: a eficiência e a competitividade.
 
O mapa do mundo está a sofrer uma transformação gradual. É como se o mapa que conhecemos, com a Europa na área central, revelando a hegemonia do Ocidente nas relações internacionais, se tivesse rasgado ao meio e o tivéssemos voltado a colar, por forma a que o Oceano Pacífico passasse a ocupar a área central.
 
Este processo global, iniciado pelo Ocidente, com economias maduras necessitadas de novos mercados para continuarem a crescer, está a ser bem aproveitado pela China, Índia, Rússia e países adjacentes, economias que estão a sair aceleradamente do nível de subsistência em que a ideologia do Planeamento Central as havia deixado e que estão a agarrar, com toda a força, a oportunidade que hoje têm. Dão prioridade absoluta à eficiência sobre a equidade, sabendo que, nos estádios em que se encontram, o crescimento provoca um aumento das desigualdades sociais mas que, apesar disso, mesmo as camadas “excluídas” ficam, por efeito da difusão da riqueza crescente, muito melhor do que estavam antes. Em contraponto, as economias ocidentais, nomeadamente a europeia, teimam em dar prioridade à equidade sobre a eficiência, estão a perder competitividade e a caminho do desastre no domínio dos orçamentos públicos e da sustentabilidade do modelo social esgotado a que teimam continuar agarradas. As populações, compreensivelmente, não querem perder a protecção e as benesses sociais que conquistaram durante a prolongada fase de expansão económica e domínio do mundo (500 anos), hoje em esgotamento por premiarem mais o lazer que o trabalho.
 
A perda deste modelo insustentável não tem retorno porque sendo verdade que o processo de globalização competitiva foi lançado pelas economias ocidentais maduras, também é verdade que já não lhes é possível, nem controlar o processo nem pará-lo. É que este processo de globalização produziu dois ícones que são a sua “verdade absoluta”: a eficiência e a competitividade. Estas “verdades”, claramente, ocuparam o espaço deixado vago pelas ideologias. Transformaram-se, ambas, naquilo que é preciso ser para progredir e vencer.
 
O terrorismo religioso, por seu turno, representa uma reacção ao processo de globalização mas, de facto, reforça a cooperação entre todos os Estados mais intrinsecamente envolvidos neste processo. Isto é, está a conseguir exactamente o contrário do que almeja.
 
De facto, actuando, sem rosto, a nível mundial, só pode ser contido por uma resposta global de todos os países mais fortemente interessados no processo de globalização, nada interessados em permitir o desenvolvimento de factores que possam perturbar o crescimento acelerado que experimentam. A China e a Índia não estão interessadas em ter problemas de abastecimento de petróleo e, consequentemente, são aliadas estratégicas dos EUA no controle das fontes de abastecimento. A Rússia, apesar de auto-suficiente no domínio energético, precisa do aliado EUA e também dos aliados China, Índia e Paquistão para conter o alastramento do Islamismo radical nas suas repúblicas do sul. O Paquistão, como única (que se saiba) republica islâmica a deter a bomba atómica é, por isso, também um “aliado necessário” e será incluído na área de rápida expansão económica formada pela China, Índia e Rússia. O crescimento parece estar a fugir para esta área e os empresários têm que ponderar a necessidade de as suas empresas aí estarem presentes. Devido às suas posições de liderança nos seus espaços de influência, é previsível que a Austrália, o Brasil e a República da África do Sul/Angola participem activamente no processo de crescimento em curso.
 
Neste enquadramento, desaparecidas as ideologias como as conhecíamos, as causas das guerras são hoje, da parte dos que não querem participar na globalização, justificadas por razões invocando a religião. Já as guerras dos que participam activamente na globalização competitiva, quer guerras armadas, quer diplomáticas ou comerciais têm a ver com a garantia das fontes de petróleo, energia ainda sem alternativa, e com o acesso aos mercados, quer em termos comerciais, quer em termos de investimento e de localização de empresas.
 
Para aprofundamento ver: SAER, Relatório sobre o Enquadramento Político e Social da Economia Portuguesa - 1º semestre de 2003.
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António Neto da Silva, Economista

Diário Económico
2006-03-24

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