SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

O sapo cozido ou a luta contra a crise

Não há guru que passe por Lisboa que não venha contar a história do sapo que, metido dentro de uma panela de água fria posta a aquecer ao lume, se deixa cozer por não dar conta da mudança de temperatura. Ora a história tem barbas, Ernâni Lopes já a contava no século passado e só alguém tão distraído como o referido sapo é que não percebe que o mundo está a mudar.

Tudo isto para dizer que estamos mais que avisados da crise que aí está à porta. E mesmo que não estivéssemos, a comunicação social, por um lado, e a carteira, por outro, encarregam-se todos os dias de nos dar duas notícias, uma boa e outra má. A boa é que isto está mau. A má é que isto vai ficar pior.

Logo, como os ilustríssimos leitores estão fartíssimos de ouvir falar nas desgraças que aí vêm, proponho que se faça o exercício contrário: o que podemos nós fazer para minorar os efeitos do vendaval que nos está a cair em cima.

1. Como o preço dos combustíveis nunca mais descerá abaixo dos 100 dólares e pode mesmo chegar aos 200 em quatro anos, há uma forte probabilidade de se reduzir drasticamente a utilização do transporte aéreo e de viaturas particulares nos próximos anos - mesmo que depois, devido a inovações tecnológicas, se verifique uma recuperação. Assim, a primeira sugestão é que o Governo suspenda e adie tudo o que seja investimentos previstos em infra-estruturas aéreas ou rodoviárias. Esses recursos vão ser desesperadamente necessários para fazer face à crise social que está inscrita no horizonte.

2. Como a água se vai tornar um bem dramaticamente escasso ("vide" o caso de Barcelona), deve ser implementado um vasto programa nacional de construção de tanques em todos os edifícios. A água da chuva assim retida deve ser utilizada para fins em que não é necessário que ela seja potável, como esgotos, lavagens, etc. É também necessário desenvolver sistemas inovadores de rega na agricultura, por forma a reduzir drasticamente o consumo de água. E tem de se reequacionar o que se vai fazer com os numerosos campos de golfe que existem no país.

3. Para diminuir a dependência energética do país, há um conjunto de medidas que se podem tomar, como o encerramento bastante mais cedo dos estabelecimentos de diversão nocturnos, cinemas e centros comerciais. Além disso, introduzir um sistema de portagens para quem quer entrar em viatura particular nas grandes cidades é obrigatório, medida que tem de ser imediatamente acompanhada pelo reforço e desenvolvimento coordenado do sistema de transportes nas grandes concentrações populacionais.

4. Finalmente, o país não pode permitir que dois milhões de portugueses se afundem na pobreza. Para evitar o crescimento das desigualdades, deve ser criado um novo escalão de impostos, de 45%, para quem ganha mais de 200 mil euros, como sugeriu esta semana Fernando Ulrich. E deve ser reintroduzido o imposto sobre sucessões para fortunas acima de 2,5 milhões de euros, que foi um erro ter sido abolido.

São medidas de bom senso para uma conjuntura muito difícil e que aponta para um horizonte onde vamos ter, a bem ou a mal, de mudar o nosso estilo de vida. Podemos não gostar. Mas daqui para a frente, que ninguém se iluda: tudo vai ser diferente.

Premiar os bons

Por estes dias, o país distinguiu ou prepara-se para premiar muitos dos seus melhores.

A Universidade Católica distinguiu a carreira brilhante do seu antigo aluno António Horta Osório, presidente do Abbey National, e o ISEG fez o mesmo em relação a Ricardo Salgado, presidente do Banco Espírito Santo.

No início desta semana, a historiadora Irene Pimentel recebeu o Prémio Pessoa, organizado pelo Expresso e Unisys, o mais importante galardão na área do conhecimento, cultura e ciência que existe em Portugal.

Na próxima segunda-feira, a COTEC, a instituição que, de forma mais consistente, tem desenvolvido uma vasta actividade no sentido de promover a investigação e desenvolvimento no tecido empresarial, organiza o seu 5.º
Encontro Nacional e atribui o Prémio Produto Inovação COTEC-Unicer.

Nos dias 8 e 9 é a vez da diáspora portuguesa ser distinguida, no primeiro caso através dos Prémios Talento 2007, organizados pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas (um prémio já com alguns anos) e, no segundo, pelo Prémio Empreendedorismo Inovador na Diáspora Portuguesa, promovido pela COTEC com o patrocínio do Presidente da República.

Tudo isto prova 1) que a sociedade e a economia portuguesa já produzem, com regularidade, talentos 2) que cada vez mais organizações entendem ser importante distinguir empresas e personalidades, como forma de assinalar os bons exemplos e passar essa mensagem.

É um sinal de vitalidade e de esperança, mesmo se ainda estamos longe de ter atingido a massa crítica suficiente para enfrentar com sucesso as grandes mutações que se estão a dar a nível global. Mas como diz António Machado, "não há caminho, caminhante, o caminho faz-se caminhando".

Nós, os de Portufrica

Em 1974, Portugal estava bastante mais perto do Norte de África do que da Europa. Desde aí, o país fez um formidável trajecto, de que nos devemos orgulhar, e tornámo-nos, pelos nossos padrões de consumo, pelas nossas expectativas, cidadãos europeus sem margem para dúvidas.

Contudo, as estatísticas mostram que a cada década que passa o nosso crescimento é menor. E, na actual, tem sido, de forma sustentada, inferior à média europeia, trazendo à superfície velhos ou novos problemas, alguns dos quais pareciam definitivamente ultrapassados.

Há um antigo filme italiano, em que alguém diz para um jovem que se prepara para partir: "Vai para África. Não lhe basta a África que tem cá!"

Nesta última década há cinco Áfricas pobres que estão a cristalizar-se em Portugal. A África económica, a que mais nos envergonha, constituída por um milhão de pessoas que vive no limiar da pobreza e com menos de dez euros por dia. A África educacional, já que 60% da população activa não completou o ensino secundário. A África cultural, pois o nosso cinema, teatro, bailado, todas as artes, em resumo, são muito pouco apoiadas pelos poderes públicos ou privados, mas também pouco acarinhadas pelos cidadãos. A África ambiental, porque a desertificação do país avança a sul, a degradação costeira é uma realidade e o tecido florestal já foi largamente consumido pelo fogo. E a África científica, porque o Estado investe menos de 1% do PIB e as empresas ainda menos em investigação, desenvolvimento e inovação, bases essenciais para um país ser competitivo no século XXI.

Estamos a tornar-nos um Portufrica, um país dual, onde o melhor do primeiro mundo convive com o pior do terceiro. Reduzir e acabar com essa clivagem é o nosso grande desafio.

Nicolau Santos

02-Jun-2008
Expresso

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