SaeR - Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco

Criar emprego passa por investir em "pequenas obras"

A criação de emprego a curto prazo passa por "uma política de investimento público muito diversificada", por oposição a "uma obra majestática", defendeu esta segunda-feira o economista Ernâni Lopes. Na apresentação do relatório trimestral da Saer, que antecipa um crescimento da economia portuguesa abaixo da média da Zona Euro, o antigo ministro das Finanças afirmou que o país "ainda está a tempo" de evitar um quadro semelhante ao da Grécia.

 

A economia portuguesa "não sofreu tanto com a crise, mas também não crescerá tanto como a Zona Euro em 2010 e, porventura, a médio prazo, correndo o risco de manter assim, no futuro, um padrão de divergência real face à média comunitária". É este o cenário traçado pelo relatório trimestral da Saer de Dezembro de 2009, assinado por Ernâni Lopes e José Poças Esteves.

"Dado o nível de endividamento público e externo da economia portuguesa e o risco de sofrer o contágio dos efeitos de situações potencialmente disruptoras de economias em pior situação, em termos de percepção do sistema financeiro internacional, Portugal deverá adoptar uma estratégia de consolidação", prescreve o documento.

O país deve, no quadro dos primeiros sinais de retoma, progredir "no sentido da consolidação orçamental acordado com Bruxelas". Os relatores concluem que "qualquer desvio significativo relativamente a esse sentido, caso esse desvio não seja generalizado às demais economias, poderá criar dificuldades de financiamento das finanças públicas e, por arrasto/contágio, de actores do sector privado".

Na apresentação do relatório, Ernâni Lopes estabeleceu como prioridades as reduções do endividamento do Estado e do défice das contas públicas.

Quanto ao emprego, disse ver apenas uma solução: "uma política de investimento público muito diversificada".

 

"Rede alargada de pequenos investimentos"

"Para criar emprego no curto prazo, não vejo cinco soluções, só vejo uma. É, com a intervenção do Estado, fazer uma política de investimento público muito diversificada, isto é, fazer várias pequenas obras, e não fazer um grande investimento, uma obra majestática seja ela qual for", sustentou o economista.

A solução mais rápida, insistiu, "é fazer uma rede alargada e diversificada de pequenos investimentos na banda de alguns poucos milhões de euros". De entre as obras em questão, "a mais fácil de todas" é, para Ernâni Lopes, a recuperação de escolas: "É que são despesas, que não sou capaz de dizer mínimas porque apesar de tudo é dinheiro, que vão direitinhas para as PME [pequenas e médias empresas], que têm um elevadíssimo conteúdo em termos comparativos de produção interna e que estão a irrigar um conjunto da economia".

"É útil, não é deitar dinheiro à rua, são geríveis no conjunto da despesa pública e, mesmo em termos de endividamento, se for bem gerido, dá para encaixar. E têm um efeito local. Este é o exemplo que eu diria mais pragmático", reforçou.

Relativamente às grandes obras públicas, Ernâni Lopes - ministro das Finanças e do Plano no IX Governo Constitucional (1983-1985), chefiado por Mário Soares - alertou que "é melhor pensar sete vezes".

 

Consolidação orçamental

Ernâni Lopes falou também do défice das contas públicas portuguesas para dizer que Portugal "ainda está a tempo" de evitar o rumo da Grécia. Todavia, está obrigado a consolidar as finanças: "Portugal ou baixa o endividamento ou continua o percurso".

O antigo ministro afirmou, contudo, que "não aconselharia retirar os estímulos" à economia.

São sete os pontos advogados por Ernâni Lopes para o futuro da economia do país: a redução do endividamento, o aumento da produtividade, a orientação de uma política económica estrutural nos domínios de potencial estratégico, o aumento das exportações, o investimento público selectivo, o investimento na educação e a concretização operacional da matriz estratégica - laços com as economias europeia, brasileira e do Continente Africano.

O economista admitiu, por fim, a possibilidade de o ciclo tornar a regredir no termo de 2010 ou no início de 2011, por causa do vencimento de altos níveis de dívida na economia dos Estados Unidos, obrigando a uma recuperação em "W".

 


RTP

Carlos Santos Neves

19.Jan.2010

Notícias

Clube SaeR

Aceda aos conteúdos exclusivos e receba regularmente a newsletter SaeR directamente na sua caixa de e-mail.

Contactos

Rua Luciano Cordeiro, 123 4º Esq.
1050-139 Lisboa
Portugal

Tel: +351 213 030 830
Fax: +351 213 030 839
E-mail: saer@saer.pt